Soloros
November 1st, 2011, 09:11 AM
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As idéias racistas defendidas por Lobato em sua obra o acompanhavam desde pelo menos 1900, quando leu L’Homme et les Sociètes (1881) de Le Bon, alentada obra em dois volumes onde o autor afirma que os seres humanos foram criados desigualmente, que a miscigenação é um fator de degeneração racial.
Após a leitura, Lobato diz ter sentido-se "transformado em um montão de ruínas", tamanho foi o abalo sofrido por sua "catolicidade caseira". Embora tenha tentado descobrir uma alternativa à "teoria científica" da desigualdade das raças, através da leitura de Comte e Spencer, Lobato parece ter deixado convencer-se pelas idéias de Le Bon. Nos anos seguintes, livros dos poligenistas Hyppolite Taine e Ernest Renan, figuras influentes no racialismo do século XIX, tornaram-se importantes fontes de referência para o escritor, que inclusive recomendava sua leitura aos amigos.
Numa carta de 1905 endereçada ao amigo Tito, Lobato declara ser impossível "civilizar" e "corrigir" o povo brasileiro, "devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio". Ele conclui que apenas uma injeção de "sangue da raça mais superior" (ou seja, a emigração oriunda de países europeus) asseguraria o futuro do país. Nesta mesma carta, ele chama de "patriota" ao brasileiro que se casasse com "italiana ou alemã"
.
Em 1908, talvez ecoando uma célebre declaração do Conde de Gobineau (que certa feita havia chamado os cariocas de "macacos"), Lobato confidenciou ao amigo Godofredo Rangel que a miscigenação criara uma classe de "corcundas de Notre Dame" nos subúrbios do Rio de Janeiro, declaração que trazia implícita uma crítica aos intelectuais da época, segundo os quais haveria um "padrão de beleza grega" entre a população mulata da cidade. Lobato advoga ainda a adoção de um esquema de segregação racial para o Brasil, nos moldes do então vigente nos EUA e a imigração de europeus para consertar a "anti-Grécia" carioca.
Alguns trechos de cartas enviadas por Lobato:
"País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. (...) Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva"
(carta enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928)
"Nos Estados Unidos, a eugenia está tão adiantada que já começam a aparecer 'filhos eugênicos'. Uma senhora da alta sociedade meses atrás ocupou durante vários dias a front page [primeira página] dos jornais mexeriqueiros graças à audácia com que, rompendo contra todos os preceitos da ciência e sem se ligar legalmente a nenhum homem, escolheu um admirável tipo macho, fê-lo estudar sobre todos os aspectos e, achando-o fit [adequado] para o fim que tinha em vista fez-se fecundar por ele. Disso resultou uma menina que está sendo criada numa farm [fazenda] especialmente adaptada para nursery [creche] eugênica."
(carta enviada a Renato Kehl em 8 de julho de 1929)
Sobre a miscigenação na Bahia:
"Mas que feio material humano formiga entre tanta pedra velha! A massa popular é positivamente um resíduo, um detrito biológico. Já a elite que brota como flor desse esterco tem todas as finuras cortesãs das raças bem amadurecidas."
Sobre a miscigenação no Rio de janeiro:
"Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral - e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas - todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível - amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde."
(carta a Godofredo Rangel incluída na primeira edição do livro "A Barca de Gleyre", em 1944)
Renato Kehl:
http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR2glarEMlv8JL8UdT2oixcz2vjjjHV9diY7F7QB6oC6PKedKib9Q
A correspondência de Monteiro Lobato mostra que, no fim dos anos 20, ele foi um entusiasta das ideias eugênicas e da obra de Renato Kehl. A primeira carta do escritor ao cientista data de 1918 e, nela, Lobato diz: "Lamento só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante como o seu". No mesmo ano, Lobato convidou Kehl para escrever o prefácio de seu livro O Problema Vital, uma coletânea de artigos do escritor publicados no jornal O Estado de S.Paulo. O entusiasmo de Lobato pela obra do cientista só aumentou na década seguinte, em que Kehl deu uma virada em seu pensamento ao abraçar radicalmente os princípios da eugenia negativa. Em 1921, Kehl publicou um artigo chamado A Esterilização sob o Ponto de Vista Eugênico, no qual defende a prática como "um auxiliar poderoso da redução dos degenerados". Para Lobato, em carta de 9 de outubro de 1929, Renato Kehl era "um D. Quixote científico (...) a pregar para uma legião de panças" (gíria que, nos anos 20, significava pessoas ignorantes). No mesmo ano, Monteiro Lobato viajou para os Estados Unidos e se entusiasmou com o país. Na terra de Abraham Lincoln, a eugenia havia ganhado status científico como em nenhum outro lugar, e Lobato lamenta que seria difícil publicar um livro de Renato Kehl no país por causa da concorrência. "Não pode haver país onde a eugenia esteja mais proclamada, estudada, praticada, 'livrada' (no sentido de publicada em livros) do que este", escreveu Lobato.
A Sociedade Eugênica de São Paulo foi responsável pelos primeiros trabalhos sistematizados em eugenia no Brasil. Nome central dessa instituição, e do eugenismo brasileiro, é o do ativista e médico Renato Ferraz Kehl (17). Entre 1917 e 1937, Kehl divulgou ativamente o movimento, publicando dezenas de livros relacionados à eugenia, bancando folhetos, proferindo conferências e participando de debates.Renato Kehl acreditava que, ao lado de propostas de transformação da sociedade por meio da adoção de estratégias de educação, deveriam existir outras ações. Estamos falando das seguintes técnicas: Exame pré-nupcial, castração, esterilização e outras. Durante os anos analisados (1917-1937), as propostas de formação de uma nova sociedade tiveram uma sofisticada articulação de tendências. Educação higiênica e esterilização eram os emblemas mais visíveis destas formulações.
Ainda que correndo o risco da fácil simplificação, poderíamos definir que os arautos do novo homem brasileiro usavam as normas de educação para melhorar as faces do povo doente, pobre e inculto e de regras biológicas para garantir a produção de um estoque potencialmente capaz de formar uma raça nacional ideal.
A esterilização dá resultados na redução dos degenerados; estes resultados, porém, não são imediatos e só se farão sentir após muitos anos de uma execução perfeita e permanente (...) a esterilização é um auxiliar poderoso da redução dos degenerados, mas isoladamente não resolve o problema da eugenização da espécie (...) Em suma, para a melhora física, moral e intelectual dos nossos semelhantes, é necessário lançar mão da esterilização, sem prescindir, porém, da pratica dos demais preceitos ditados pela eugenia positiva, preventiva e negativa.(Renato Kehl em "A esterilização sobre um ponto de vista eugênico")
Kehl viveu em uma época em que a preocupação com a identidade nacional e com a formação da nacionalidade imperava. Seu discurso era diferente dos outros representantes do pensamento social, membros do movimento sanitarista que refutavam uma suposta característica dominante explicativa, que atribuía aos tipos mestiços, decorrentes da miscigenação racial, o insucesso econômico e cultural do país. Porém, de uma forma ampla, para as camadas intelectuais e urbanas que pensavam conhecer o verdadeiro Brasil, a raça branca era superior às demais, enquanto a composição racial heterogênea era condenada. Segundo as teorias raciológicas mais ortodoxas, os mestiços traziam os vícios e defeitos das “raças” inferiores. Portanto, eram preguiçosos e parasitas. Heranças dos índios, negros e portugueses. Alguns intelectuais sanitaristas destacaram-se neste cenário, pois consideravam que o “problema vital” , como destacou Monteiro Lobato, que dominava a sociedade brasileira, nada tinha a ver com o chamado determinismo biológico. Para estes, a explicação era médica e a solução era eugênica e educativa. Tratava-se de aprimorar a raça nacional por meio da “higienização” das células reprodutoras.
Para entender os significados dos conceitos em Kehl tornar-se necessário compreender o percurso realizado pelo autor. Ele apoiava-se nos saberes das ciências biomédicas emergentes para responder como foi construída a nacionalidade brasileira. Ao lançar as representações sobre o país, Kehl tentava explicar a sua época. Em sua grande maioria, os intelectuais destacavam a inferioridade e a degeneração dos mulatos. Os cruzamentos “promíscuos” eram produtores de indivíduos incapazes para o progresso da nação. O pessimismo em relação ao perfil racial brasileiro poderia ser superado se as idéias e praticas do eugenismo nacional fossem adotadas. Recebida como uma arma capaz de promover uma "nova ordem social" pela melhoria da raça, a eugenia encontrou em Renato Kehl, um de seus mais importantes divulgadores.
Os planos de eugenistas e sanitaristas dividiam-se em eugenia preventiva (controle dos fatores disgênicos pelo saneamento), em eugenia positiva (incentivo e regulação da procriação dos capazes) e na eugenia negativa (evitar a procriação dos considerados incapazes). O objetivo era modernizar o país e apagar os símbolos da degeneração racial. Dos sanitaristas, que negavam as teses da indolência inata tropical, vinham os remédios para um futuro promissor: a educação higiênica e as ações públicas sanitárias.
As condições ambientais dever-se-iam modificar-se para que, transformando os indivíduos, os seus descendentes fossem beneficiados. Por outro lado, eugenistas e sanitaristas entendiam que as reformas sanitárias aprimorariam a capacidade hereditária. Práticas associadas com a eugenia exemplificam a filiação neolamarckista: campanhas contra o alcoolismo e as doenças venéreas. Coexistiam teorias que adotavam uma seleção racial capaz de embranquecer a população, produzindo um “tipo nacional”, com teses de que o futuro eugênico seria resultado do desenvolvimento econômico e social.
As idéias racistas defendidas por Lobato em sua obra o acompanhavam desde pelo menos 1900, quando leu L’Homme et les Sociètes (1881) de Le Bon, alentada obra em dois volumes onde o autor afirma que os seres humanos foram criados desigualmente, que a miscigenação é um fator de degeneração racial.
Após a leitura, Lobato diz ter sentido-se "transformado em um montão de ruínas", tamanho foi o abalo sofrido por sua "catolicidade caseira". Embora tenha tentado descobrir uma alternativa à "teoria científica" da desigualdade das raças, através da leitura de Comte e Spencer, Lobato parece ter deixado convencer-se pelas idéias de Le Bon. Nos anos seguintes, livros dos poligenistas Hyppolite Taine e Ernest Renan, figuras influentes no racialismo do século XIX, tornaram-se importantes fontes de referência para o escritor, que inclusive recomendava sua leitura aos amigos.
Numa carta de 1905 endereçada ao amigo Tito, Lobato declara ser impossível "civilizar" e "corrigir" o povo brasileiro, "devido ao fatalismo das inclinações, dos pendores, herdados com o sangue e depurados pelo meio". Ele conclui que apenas uma injeção de "sangue da raça mais superior" (ou seja, a emigração oriunda de países europeus) asseguraria o futuro do país. Nesta mesma carta, ele chama de "patriota" ao brasileiro que se casasse com "italiana ou alemã"
.
Em 1908, talvez ecoando uma célebre declaração do Conde de Gobineau (que certa feita havia chamado os cariocas de "macacos"), Lobato confidenciou ao amigo Godofredo Rangel que a miscigenação criara uma classe de "corcundas de Notre Dame" nos subúrbios do Rio de Janeiro, declaração que trazia implícita uma crítica aos intelectuais da época, segundo os quais haveria um "padrão de beleza grega" entre a população mulata da cidade. Lobato advoga ainda a adoção de um esquema de segregação racial para o Brasil, nos moldes do então vigente nos EUA e a imigração de europeus para consertar a "anti-Grécia" carioca.
Alguns trechos de cartas enviadas por Lobato:
"País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. (...) Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva"
(carta enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928)
"Nos Estados Unidos, a eugenia está tão adiantada que já começam a aparecer 'filhos eugênicos'. Uma senhora da alta sociedade meses atrás ocupou durante vários dias a front page [primeira página] dos jornais mexeriqueiros graças à audácia com que, rompendo contra todos os preceitos da ciência e sem se ligar legalmente a nenhum homem, escolheu um admirável tipo macho, fê-lo estudar sobre todos os aspectos e, achando-o fit [adequado] para o fim que tinha em vista fez-se fecundar por ele. Disso resultou uma menina que está sendo criada numa farm [fazenda] especialmente adaptada para nursery [creche] eugênica."
(carta enviada a Renato Kehl em 8 de julho de 1929)
Sobre a miscigenação na Bahia:
"Mas que feio material humano formiga entre tanta pedra velha! A massa popular é positivamente um resíduo, um detrito biológico. Já a elite que brota como flor desse esterco tem todas as finuras cortesãs das raças bem amadurecidas."
Sobre a miscigenação no Rio de janeiro:
"Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral - e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas - todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível - amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde."
(carta a Godofredo Rangel incluída na primeira edição do livro "A Barca de Gleyre", em 1944)
Renato Kehl:
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A correspondência de Monteiro Lobato mostra que, no fim dos anos 20, ele foi um entusiasta das ideias eugênicas e da obra de Renato Kehl. A primeira carta do escritor ao cientista data de 1918 e, nela, Lobato diz: "Lamento só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante como o seu". No mesmo ano, Lobato convidou Kehl para escrever o prefácio de seu livro O Problema Vital, uma coletânea de artigos do escritor publicados no jornal O Estado de S.Paulo. O entusiasmo de Lobato pela obra do cientista só aumentou na década seguinte, em que Kehl deu uma virada em seu pensamento ao abraçar radicalmente os princípios da eugenia negativa. Em 1921, Kehl publicou um artigo chamado A Esterilização sob o Ponto de Vista Eugênico, no qual defende a prática como "um auxiliar poderoso da redução dos degenerados". Para Lobato, em carta de 9 de outubro de 1929, Renato Kehl era "um D. Quixote científico (...) a pregar para uma legião de panças" (gíria que, nos anos 20, significava pessoas ignorantes). No mesmo ano, Monteiro Lobato viajou para os Estados Unidos e se entusiasmou com o país. Na terra de Abraham Lincoln, a eugenia havia ganhado status científico como em nenhum outro lugar, e Lobato lamenta que seria difícil publicar um livro de Renato Kehl no país por causa da concorrência. "Não pode haver país onde a eugenia esteja mais proclamada, estudada, praticada, 'livrada' (no sentido de publicada em livros) do que este", escreveu Lobato.
A Sociedade Eugênica de São Paulo foi responsável pelos primeiros trabalhos sistematizados em eugenia no Brasil. Nome central dessa instituição, e do eugenismo brasileiro, é o do ativista e médico Renato Ferraz Kehl (17). Entre 1917 e 1937, Kehl divulgou ativamente o movimento, publicando dezenas de livros relacionados à eugenia, bancando folhetos, proferindo conferências e participando de debates.Renato Kehl acreditava que, ao lado de propostas de transformação da sociedade por meio da adoção de estratégias de educação, deveriam existir outras ações. Estamos falando das seguintes técnicas: Exame pré-nupcial, castração, esterilização e outras. Durante os anos analisados (1917-1937), as propostas de formação de uma nova sociedade tiveram uma sofisticada articulação de tendências. Educação higiênica e esterilização eram os emblemas mais visíveis destas formulações.
Ainda que correndo o risco da fácil simplificação, poderíamos definir que os arautos do novo homem brasileiro usavam as normas de educação para melhorar as faces do povo doente, pobre e inculto e de regras biológicas para garantir a produção de um estoque potencialmente capaz de formar uma raça nacional ideal.
A esterilização dá resultados na redução dos degenerados; estes resultados, porém, não são imediatos e só se farão sentir após muitos anos de uma execução perfeita e permanente (...) a esterilização é um auxiliar poderoso da redução dos degenerados, mas isoladamente não resolve o problema da eugenização da espécie (...) Em suma, para a melhora física, moral e intelectual dos nossos semelhantes, é necessário lançar mão da esterilização, sem prescindir, porém, da pratica dos demais preceitos ditados pela eugenia positiva, preventiva e negativa.(Renato Kehl em "A esterilização sobre um ponto de vista eugênico")
Kehl viveu em uma época em que a preocupação com a identidade nacional e com a formação da nacionalidade imperava. Seu discurso era diferente dos outros representantes do pensamento social, membros do movimento sanitarista que refutavam uma suposta característica dominante explicativa, que atribuía aos tipos mestiços, decorrentes da miscigenação racial, o insucesso econômico e cultural do país. Porém, de uma forma ampla, para as camadas intelectuais e urbanas que pensavam conhecer o verdadeiro Brasil, a raça branca era superior às demais, enquanto a composição racial heterogênea era condenada. Segundo as teorias raciológicas mais ortodoxas, os mestiços traziam os vícios e defeitos das “raças” inferiores. Portanto, eram preguiçosos e parasitas. Heranças dos índios, negros e portugueses. Alguns intelectuais sanitaristas destacaram-se neste cenário, pois consideravam que o “problema vital” , como destacou Monteiro Lobato, que dominava a sociedade brasileira, nada tinha a ver com o chamado determinismo biológico. Para estes, a explicação era médica e a solução era eugênica e educativa. Tratava-se de aprimorar a raça nacional por meio da “higienização” das células reprodutoras.
Para entender os significados dos conceitos em Kehl tornar-se necessário compreender o percurso realizado pelo autor. Ele apoiava-se nos saberes das ciências biomédicas emergentes para responder como foi construída a nacionalidade brasileira. Ao lançar as representações sobre o país, Kehl tentava explicar a sua época. Em sua grande maioria, os intelectuais destacavam a inferioridade e a degeneração dos mulatos. Os cruzamentos “promíscuos” eram produtores de indivíduos incapazes para o progresso da nação. O pessimismo em relação ao perfil racial brasileiro poderia ser superado se as idéias e praticas do eugenismo nacional fossem adotadas. Recebida como uma arma capaz de promover uma "nova ordem social" pela melhoria da raça, a eugenia encontrou em Renato Kehl, um de seus mais importantes divulgadores.
Os planos de eugenistas e sanitaristas dividiam-se em eugenia preventiva (controle dos fatores disgênicos pelo saneamento), em eugenia positiva (incentivo e regulação da procriação dos capazes) e na eugenia negativa (evitar a procriação dos considerados incapazes). O objetivo era modernizar o país e apagar os símbolos da degeneração racial. Dos sanitaristas, que negavam as teses da indolência inata tropical, vinham os remédios para um futuro promissor: a educação higiênica e as ações públicas sanitárias.
As condições ambientais dever-se-iam modificar-se para que, transformando os indivíduos, os seus descendentes fossem beneficiados. Por outro lado, eugenistas e sanitaristas entendiam que as reformas sanitárias aprimorariam a capacidade hereditária. Práticas associadas com a eugenia exemplificam a filiação neolamarckista: campanhas contra o alcoolismo e as doenças venéreas. Coexistiam teorias que adotavam uma seleção racial capaz de embranquecer a população, produzindo um “tipo nacional”, com teses de que o futuro eugênico seria resultado do desenvolvimento econômico e social.